Ensaio Sobre a Cegueira
Tire as vendas
Cego. Cego e sem ar. Depois de instantes, aliviado. Foram essas as minhas sensações ao fechar o livro “Ensaio sobre a Cegueira”, obra sagaz de José Saramago, que daqui a uns bons anos pretendo revisitar.
De longe, agachado, em silêncio e apalpando as paredes para sensibilizar o tato, assim eu estava enquanto observava essa história. Me encontrava numa sociedade de local desconhecido, sem data, sem hora e formada de humanos humanos. Lindos e sujos. Repletos e vazios de moral e ética. Valores que se questionam quando todos sofrem com uma epidemia de cegueira. Cria-se então a expectativa. A esperança de um fio de imagem nítida. A mesma que nunca foi valorizada.
Esse livro de Saramago é emocionante, mas, não no aspecto veloz. Ele é miraculoso. Traz o peso da injustiça. E o cheiro e sabor também. Só que é solidário e compreensivo. Nessa mistura Saramago monta personagens, nos dá paisagens e deixa a nosso critério enxergar de verdade, ter flashes ou viver na nossa própria escuridão. Uma obra diferenciada e difícil de resenhar aqui.
Exibido pela primeira vez em 15 de maio, no Festival de Cannes, na França, o filme “Blindness”, inspirado nesse romance de Saramago, foi alvo de críticas e aplausos. Algo natural e não muito relevante – literatura e cinema são mídias distintas. Entretanto, as comparações com o imaginário são inevitáveis. No Brasil as telonas devem contar essa história no dia 5 de setembro, o jeito é aguardar. Enquanto isso a dica é: leia essa relíquia, de preferência, à meia luz.


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