Memórias de um sobrevivente
Leio a revista Trip há anos e acompanho sempre a coluna de Luiz Alberto Mendes, desde a detenção até sua liberdade. Quando comprei seu livro tinha milhões de versões para sua vida pregressa, mas jamais imaginei o turbilhão de emoções que ia sentir ao lê-lo. Luiz fez carreira no crime e a literatura o salvou e a tantos outros que o leram, inclusive eu.
Muito jovem começou a apanhar. Primeiro do pai, figura chave e coadjuvante na história de sua vida. Depois foi a polícia quem lhe aplicou corretivos que nunca funcionaram, e também não funciona hoje. Entrementes, as aventuras na cidade iluminada salpicada de drogas e grana, canos e correria, amores efêmeros e um ódio daquilo tudo que não podia ter. Ele só queria ser alguém para alguém.
O livro te tira o fôlego, o faz torcer para que nunca mais volte à prisão, para que esqueça o crime, que encontre logo motivos para sobreviver. Poucos deles conseguiram. A história de um sobrevivente do sistema há muito falido, o faz repensar suas próprias atitudes como cidadão.
Dois clichês saltam aos olhos no livro. Primeiro que o crime não compensa (a não ser que seja do colarinho branco, para estes a justiça é realmente cega), segundo que o sistema carcerário transforma trombadinhas em ladrões latrocidas e ninguém faz nada. Melhor dizendo, poucos fazem, mas muito menos se importam.
Mendes sobreviveu a si mesmo e a todas as injustiças possíveis. Injustiças que ele mesmo proferiu com seus crimes, injustiças a que foi condenado antes de poder escolher que caminho seguir. Injustiças que cometemos todos os dias ao ignorar um pequeno grupo chamado “os outros”. Enfim, injustiças de um país desigual, onde altos muros não protegem de nada, principalmente de si mesmos.
O livro termina e a vontade de continuar lendo provoca. Nas ruas olho para pessoas que desconfio serem ladrões e não sinto medo ou raiva, mas penso se ele irá sobreviver. O moleque que me vende balas poderia também ser recrutado pelo crime? O detento vai fazer o que quando sair da prisão?
Um dos melhores livros que já li. Se tiver alguma dúvida de sua qualidade, veja minhas outras resenhas.
Memórias de um sobrevivente – Companhia de Bolso – 416 páginas
Cassiano;
eu te agradeço profundamente a resenha. Gostei. Meu e-mail é lmendesjunior@gmail.com
Abraços calorosos
Luiz Mendes