Paixão pela fotografia

•Julho 2, 2009 • Deixe um comentário

O Câmara Clara do francês Roland Barthes é um suspiro de paixão pela fotografia. Além de dissecar as maneiras de contemplar as imagens, Barthes provoca a busca de sentidos no ato de fotografar, ser fotografado e guardar a fotografia.

camara clara

Duas perspectivas chamam a atenção nesse livro. O puntctum, que significa o que salta aos olhos ferozmente na foto, e o spectrum, o fotografado. No spectrum temos ainda duas revelações importantes que traduzem muito do ato de fotografar.

 Em primeiro ele representa o espetáculo. Miramos nossa câmera para o belo, o inusitado, algo fora do comum, isto é Teatro. Em segundo e em contradição, a Morte. Imóvel, o personagem da foto imediatamente está para a eternidade como um morto, sem respirar, nem mexer os olhos. 

O ensaio é fonte para pesquisas sobre fotografia desde que foi lançado, em 1981. Logo depois Barthes faleceu atropelado e esta foi sua última obra. Seria muito interessante um segundo ensaio sobre os Flickrs, Fotologs e derivados que temos hoje.

Negros do poder

•Março 2, 2009 • Deixe um comentário

A história de uma guerra inescrupulosa em território africano

 

 O escritor e jornalista Frederick Forsyth viveu nas trincheiras biafrenses nos anos de 1966 a 1969, período em que morreram cerca de 1,5 milhão de pessoas, sendo um terço crianças, a maioria de fome. A História de Biafra é contada com fatos históricos que antecedem os bombardeios federais de Lagos e com uma crítica veemente à Inglaterra colonizadora que apoiou e patrocinou o genocídio.

 

Imagine um país africano semi-estruturado onde um pequeno estado busca a independência por não compactuar com a corrupção que assola a nação. Neste pequeno estado estão a maior concentração de petróleo do país, os mais bem estudados e a etnia mais odiada. Juntando tudo fica difícil legitimar a causa biafrense perante a Nigéria.

 

No entanto, as conseqüências políticas da guerra não deixam dúvidas. Primeiro acompanhamos a limpeza étnica por todo norte do país, depois a luta de 10 mil homens na resistência contra os 80 mil federais que varriam cidades sem perdoar mulheres e crianças.

 

O mundo só percebeu o massacre depois da divulgação de fotos de crianças morrendo de fome, no fim da guerra. Ser crítico nessa história é não concordar que a causa era legítima, mas acompanhar os fatos é ter certeza da indiferença do governo inglês para com o continente africano e suas vidas.

 Capa da Life na época da Guerra

 As batalhas campais, as manobras políticas, a solidariedade dos americanos, a participação das Igrejas, da Comnwelth, compõem a história recente da Nigéria, uma confederação desunida e sem progresso significativo, como a maioria das nações africanas.

 

 

Sobre o autor:

Frederick Forsyth se especializou em política internacional através da história deste livro, mas é com O Dia do Chacal que escreveu depois e lançou antes que fez fama. Neste outro livro ele fala sobre as tentativas que presenciou de matar o general Charles De Gaulle em Paris em 1962. Como jornalista atuou como correspondente da BBC Londres, depois para o Daily Express e para a revista Time.

 

O Velho Mundo repaginado pela Guerra

•Fevereiro 15, 2009 • 1 Comentário
livro de Tony Judt

livro de Tony Judt

O anglo-americano Tony Judt conta a história da Europa de 1945 até os dias atuais em uma narrativa com ritmo de triller e repleto de detalhes. O cenário de destruição e morte do início parece refletir em cada decisão política, em cada mudança cultural, cada traço de identidade nacional do continente, moldando a sociedade especialmente através da economia e cultura.

 

Os personagens da história formados por políticos, generais e teóricos enriquecem a trama real na reconstrução da Europa definindo cada conseqüência para suas atitudes. Hitler, Stalin, Adenauer e De Gaule * são alguns nomes que sustentam os grandes acontecimentos da história.

 

É curioso descobrir a guerra intelectual e ideológica que se seguiu com a Guerra Fria, bem como o desdobramento econômico nos países arrasados pela guerra. A guerra também sacudiu a população de seus lugares. A cada bomba uma mudança e não somente física, mas principalmente cultural. O regime político a ser adotado estava em plena e forte mudança. Comunismo e capitalismo surgiam como o ideário perfeito e dividiam a Europa em ocidental e oriental.

 

Parece uma história muito conhecida, mas quando se caminha pelos detalhes compreende-se muito mais do que está acontecendo hoje, por exemplo, no cenário internacional, especialmente da Europa.

 

Ainda não terminei o livro e voltarei para resenhar ele completo. Agora estou no surgimento da Comunidade Européia e o surpreendente “boom” econômico do Pós-guerra. A história da Europa é fundamental para quem quer compreender os efeitos da guerra na sociedade moderna bem como a divisão dos hemisférios em primeiro e terceiro mundo.

 

O autor não esconde sua opinião nas linhas da história, mas não prejudica o bom entendimento do que aconteceu no continente em conseqüência das guerras e políticas internacionais. Uma visão moderna imperdível para os amantes da história.

 

Voltarei a postar sobre este livro quando terminar a segunda parte que fala mais dos dias atuais.

 

*Konrad Adenauer – presidente da Alemanha Ocidental no Pós Guerra.

Charles De Gaulle – General presidente Francês por quase duas décadas.

 

Pós-Guerra, uma história da Europa desde 1945, Objetiva, 847 págs.

 

 

A Sangue Frio

•Fevereiro 13, 2009 • Deixe um comentário

 

CapoteO assassinato da família Clutter.

           A Sangue Frio de Truman Capote retrata o assassinato de quatro membros de uma tradicional família do Kansas, nos Estados Unidos. A vida e trajetória dos assassinos e vítimas descritas quase como uma notícia dão à obra um aspecto menos romântico e mais real, justificando o motivo torpe do crime com uma incógnita psicose dos criminosos.

 

                Capote, que levou seis anos para concluir o livro, viveu intensamente todos os detalhes para descrevê-los, desde o planejamento do assassinato, até o enforcamento dos réus. 

 

Os assassinos Dick e Smith, se conheceram numa penitenciaria e Dick, ao saber de uma fazenda no estado do Kansas cujo proprietário, Sr. Herb Cluter, pagava seus funcionários em dinheiro, anotou em sua excelente memória o endereço da fazenda, como se fosse um mapa de tesouro. Ao saírem da prisão planejaram o roubo deste cofre com a máxima de não deixarem testemunhas vivas. Assim, ao se depararem com os quatro membros da família, matam todos, a sangue frio, dando nome ao livro.

 

Os detetives, a comunidade, a igreja ortodoxa fazem parte da trama que torna o livro uma completa descrição de duas violências, primeiro o múltiplo assassinato, em seguida, a sentença de morte para seus autores. Com este livro Truman Capote se consagra como escritor literato jornalista e marca o divisor de águas em sua conturbada carreira de jornalista da revista “The Yorker”.

Filha da Fortuna

•Agosto 26, 2008 • Deixe um comentário

Do acaso ao descaso – A filha da cobiça

 

Eliza Sommers foi deixada à porta de uma família americana rica na cidade chilena de Valparaíso, famosa por seu movimentado porto. Cresce como uma enteada indesejada, que desfruta da vida boa de rica, mas encontra os seus na cozinha da casa. Apaixona-se por um sonhador que a convence de fugir para a Califórnia na corrida do ouro de 1850. Na viagem em um porão de navio recheado de ópio e ratos começam seus sacrifícios, inclusive um aborto.

O ambiente na Califórnia é um dos piores. Homens a busca de ouro encontram índios em guerra, doenças desconhecidas, assassinos de aluguel, poucas mulheres, das quais muitas, prostitutas e pouco ouro. Estabelecida neste ambiente, Eliza estreita amizade com Tao Chi’en, um chinês que atuava como curandeiro e enquanto seu amado estava perdido ela desfrutava de sua companhia e alimentava uma paixão tácita que os envolve cada vez mais.

Muitas partes dessa narrativa são cansativas. Há momentos em que parece que estamos lendo em círculos, não sai do lugar, não aparece o sol e nem muda o cenário. Mas o conjunto total coloca mais questionamentos do que respostas e daí a leitura vale a pena.

É agradável perceber o amadurecimento da protagonista, conhecer partes da história referentes à corrida do ouro, a história do Chile do século retrasado entre outros cenários e tramas.

Melancia

•Agosto 25, 2008 • 1 Comentário

 

Um coração partido e um corpo inteiramente redondo.

 

Uma narrativa água-com-açúcar sobre a arte de manter o bom humor mesmo nos momentos mais adversos.

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Crime e Castigo

•Agosto 25, 2008 • Deixe um comentário

 

Aqui se faz, aqui se paga

 

A solidão e a embriaguez são amigos fieis da culpa. Não aquela que se adquire sem querer, ou aquela que se pode esquecer, mas sim aquela que domina o seu pensamento de forma tão avassaladora que não há outro caminho a não ser a vertigem de confessar seu erro e livrar-se do peso na consciência e suas mazelas.

Ródion Raskólnikov não sucumbiu nem às febres intermináveis, nem às noites mal dormidas num fétido quarto sub-locado na fria São Petersburgo do século XVIII. Suportou dois anos antes que seu crime fosse desvendado e a prisão viesse te libertar. Durante esse período fugiu de si mesmo, sombras o encaravam nas tabernas e praças, seus distantes familiares apareciam em devaneios e a febre o acompanhava dia e noites a fio sem trégua e sem piedade.

Dostóiveski disse em exílio que “é possível julgar o grau de civilização de uma sociedade visitando suas prisões”. Neste livro ele coloca a prisão dentro do homem e apresenta o que de mais humano existe na culpa e no abandono. Seus parágrafos de duas páginas internam o leitor nessa agonia incessante e o fazem refletir sobre o bem e o mal, sobre a moral e a ética de uma perspectiva real que é a falta de dinheiro.

O protagonista estudante de direito matou a machadadas duas irmãs, Alena e Isabel Ivanóvna, a primeira empenhava artigos em troca de empréstimos em dinheiro, a segunda estava lá por acaso. O crime se justifica pelo dinheiro apenas, o castigo pela moral, pela insignificância do resultado do crime, por algo que não se pode deixar de pagar ainda em vida.

O menino do pijama listrado

•Agosto 25, 2008 • Deixe um comentário

 

Pureza em meio ao caos

 

Volte a ser criança. Imagine-se em Auschwitz, na Polônia, no fervor do Holocausto. Não combina, não é? Pois bem, John Boyne conseguiu. Uniu a inocência da infância à tragédia da Segunda Guerra Mundial. “O menino do pijama listrado” é um livro com gosto de lágrima.

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Rota 66

•Agosto 21, 2008 • Deixe um comentário

“Cuidado pessoal lá vem vindo a veraneio, toda pintada de branco preto e cinza e vermelho!”

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Travessuras da menina má

•Agosto 20, 2008 • Deixe um comentário

 

Sexo, amor e mágoa no decorrer do tempo

 

Uma caçada ao estilo Carmen Sandiego. Com elementos pontuais para uma história sagaz – ironia e inocência, paixão e segredos. Assim, Mario Vargas Llosa escreveu “Travessuras da menina má”. Um romance divertido que me deixou puto inúmeras vezes.

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Ensaio Sobre a Cegueira

•Agosto 18, 2008 • Deixe um comentário

 

Tire as vendas

 

Cego. Cego e sem ar. Depois de instantes, aliviado. Foram essas as minhas sensações ao fechar o livro “Ensaio sobre a Cegueira”, obra sagaz de José Saramago, que daqui a uns bons anos pretendo revisitar.

 

 

 

De longe, agachado, em silêncio e apalpando as paredes para sensibilizar o tato, assim eu estava enquanto observava essa história. Me encontrava numa sociedade de local desconhecido, sem data, sem hora e formada de humanos humanos. Lindos e sujos. Repletos e vazios de moral e ética. Valores que se questionam quando todos sofrem com uma epidemia de cegueira. Cria-se então a expectativa. A esperança de um fio de imagem nítida. A mesma que nunca foi valorizada.

 Esse livro de Saramago é emocionante, mas, não no aspecto veloz. Ele é miraculoso. Traz o peso da injustiça. E o cheiro e sabor também. Só que é solidário e compreensivo. Nessa mistura Saramago monta personagens, nos dá paisagens e deixa a nosso critério enxergar de verdade, ter flashes ou viver na nossa própria escuridão. Uma obra diferenciada e difícil de resenhar aqui.

 

Cegueira adaptada

 

Exibido pela primeira vez em 15 de maio, no Festival de Cannes, na França, o filme “Blindness”, inspirado nesse romance de Saramago, foi alvo de críticas e aplausos. Algo natural e não muito relevante – literatura e cinema são mídias distintas. Entretanto, as comparações com o imaginário são inevitáveis. No Brasil as telonas devem contar essa história no dia 5 de setembro, o jeito é aguardar. Enquanto isso a dica é: leia essa relíquia, de preferência, à meia luz.