A Senhora do Jogo
Kate Blackwell, nome forte que atravessou a fronteira de dois livros. O primeiro, ‘O Reverso da Medalha’, um os maiores best-sellers de Sidney Sheldon, a consagrou. Neste livro, ela não é mais a protagonista, mas seu legado construiu toda a história.
Tilly Bagshawe, co-autora do A Senhora do Jogo, junto com Sheldon, se diz privilegiada de poder continuar a história de seu mestre, e segue bem os traços do autor. O inesperado, as tragédias, as tramas familiares e o complexo jogo de poder fazem bem a escola de Sheldon.
O livro começa no final. O casamento de Lexi Templenton, bisneta de Kate, guarda uma surpresa que será revelada apenas no final. No desenrolar da trama há um excesso de tragédias, sua mãe morre, ela é sequestrada e estuprada, seu pai quase enlouquece etc. O amor furtivo de Lexi muda de mãos durante a trama. Primeiro ama seu primo e maior inimigo Max Webster, depois se apaixona por Gabe MacGregor, integrante distante de sua árvore genealógica que sofre suas próprias tragédias perdendo a família inteira para sobrar para Lexi.
No restante, o livro vai bem. A disputa pela empresa da família Blackwell, Kruger-Brent, inspira os mais aficionados administradores. O luxo, os lugares mais bonitos do mundo, a África, são cenários recorrentes de uma família abastada. No entanto, as surpresas terminam antes do final, pouco empolgante.
Um livro para se ler sem compromisso, para curtir e se deixar levar.
SHELDON, Sidney e BAGSHAWE, Tilly, Record, 461 páginas, 2009.
A maldade de deus
Caim, filho de adão e eva, matou seu irmão abel, isso todo mundo sabe. O que não sabíamos era que depois do crime, caim recebeu do todo poderoso o castigo de andanças pelas sombras do mundo. No caminho, desvendou o divino mostrando sua face humana recheada de maldades e decisões duvidosas que culminam com o dilúvio.
José Saramago apresenta em seu novo romance a discórdia entre deus e os homens (deus escrito com letra minúscula, aliás como o nome de todos os personagens do livro). “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele” escreve.
O Jardim do Éden, de onde foi expulso o casal progenitor da humanidade, é o cenário inicial. Daí até o dilúvio final, diversas passagens bíblicas do antigo testamento são retratadas sob a ótica de caim, que conhecia os julgamentos de deus sobre a humanidade. Para ele, o senhor queria reconhecer a generosidade que o fez conceber aos homens a vida. Desiludido, decide vingar-se.
Por sua decisão, deus destrói a torre de babel, chama abraão para o sacrifício de seu primogênito, despeja fogo sobre sodoma e somorra e aposta com o coisa ruim para provar sua superioridade. Caim, assistindo a tudo, interferiu muitas vezes sem mudar os resultados, exceto no final. Na arca de noé, não havia nenhum casal de humanos.
Uma leitura intrigante e em alguns pontos difícil pelo português de Portugal e palavras menos conhecidas. O oásis do livro fica por conta de lilith, a amante insaciável de alguma passagem bíblica que eu não conheço, ou não me lembro. Ela torna-se cúmplice de caim e mesmo apaixonados, se separam para ele continuar suas desventuras.
Saramago mostra uma face humana de deus, e talvez, isso afronte os crentes e religiosos. Sob a ótica do autor, nada é absurdo nas decisões do senhor, não é absurdo sua insatisfação com sua cria, e nem sua intervenção vingativa.
Polêmico e divertido, o romance é a cara do autor. Provoca reflexões espirituais e racionais. Não explica nada e nem tem a pretensão de explicar, como tentou Dan Brown.
SARAMAGO, José. Caim. São Paulo, Companhia das Letras, 172 páginas, 2009.
Memórias de um sobrevivente
Leio a revista Trip há anos e acompanho sempre a coluna de Luiz Alberto Mendes, desde a detenção até sua liberdade. Quando comprei seu livro tinha milhões de versões para sua vida pregressa, mas jamais imaginei o turbilhão de emoções que ia sentir ao lê-lo. Luiz fez carreira no crime e a literatura o salvou e a tantos outros que o leram, inclusive eu.
Muito jovem começou a apanhar. Primeiro do pai, figura chave e coadjuvante na história de sua vida. Depois foi a polícia quem lhe aplicou corretivos que nunca funcionaram, e também não funciona hoje. Entrementes, as aventuras na cidade iluminada salpicada de drogas e grana, canos e correria, amores efêmeros e um ódio daquilo tudo que não podia ter. Ele só queria ser alguém para alguém.
O livro te tira o fôlego, o faz torcer para que nunca mais volte à prisão, para que esqueça o crime, que encontre logo motivos para sobreviver. Poucos deles conseguiram. A história de um sobrevivente do sistema há muito falido, o faz repensar suas próprias atitudes como cidadão.
Dois clichês saltam aos olhos no livro. Primeiro que o crime não compensa (a não ser que seja do colarinho branco, para estes a justiça é realmente cega), segundo que o sistema carcerário transforma trombadinhas em ladrões latrocidas e ninguém faz nada. Melhor dizendo, poucos fazem, mas muito menos se importam.
Mendes sobreviveu a si mesmo e a todas as injustiças possíveis. Injustiças que ele mesmo proferiu com seus crimes, injustiças a que foi condenado antes de poder escolher que caminho seguir. Injustiças que cometemos todos os dias ao ignorar um pequeno grupo chamado “os outros”. Enfim, injustiças de um país desigual, onde altos muros não protegem de nada, principalmente de si mesmos.
O livro termina e a vontade de continuar lendo provoca. Nas ruas olho para pessoas que desconfio serem ladrões e não sinto medo ou raiva, mas penso se ele irá sobreviver. O moleque que me vende balas poderia também ser recrutado pelo crime? O detento vai fazer o que quando sair da prisão?
Um dos melhores livros que já li. Se tiver alguma dúvida de sua qualidade, veja minhas outras resenhas.
Memórias de um sobrevivente – Companhia de Bolso – 416 páginas
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